Confesso que a instigante frase do filósofo Albert Camus dizendo que "não se pode criar experiência. É preciso passar por elas", tem aberto portas angustiantes em mim. Pois, é muito mais cômodo e simples criarmos as experiências que gostaríamos de passar. Seria algo muito frio, sem aventura, sem adrenalina e sem explosão, se pudéssemos como um passe de mágica selecionarmos etapas de nossas vidas para degustá-las de suas experiências. Acho que seria como degustar um bom e saboroso café sem a experiência do preparo. Tanto quem preparou, como quem só está saboreando, sentirão do mesmo aroma e do mesmo gosto de café, porém, aquele que participou de todo o processo tem mais propriedade ao tomá-lo. Pois, o café passa a ser mais seu, tem mais verdade em seu saborear.
Nosso vínculo com a experiência é construído desde a gestação e nunca pára de acontecer. São explosões de metamorfoses que nos forçam para caminhos novos e extasiantes, horizontes de descobertas e de projeções angustiáveis. Não quero dizer que somos uma espécie de cobaias humanas da vida. Mas, temos que ter a audácia oportuna de perceber o que dizia Vinicius de Moraes "quem já passou por esta vida e não viveu. Pode ser mais mas sabe menos do que eu porque a vida só se dá pra quem se deu". Se dá pra quem se deu, não seria, se dá para as experiências? Então, somos seres experimentais o tempo todo. Não as criamos, simplesmente elas acontecem quando resolvemos nos dá sem medo. Quando resolvemos passar por elas com desejos insaciáveis de novidades.
A importância de passarmos pelas experiências é que nos possibilitam ajustes, crescimento humano e limites de nossa humanidade. São nossas raras oportunidades de compôr versos, rasgar coisas prontas e achar outras amargas demais para continuar. Oportunidades que temos de ver o quanto que as malas existenciais estão pesadas e que são impróprias para carregar. Que temos dado importância demais à objetos, que temos amontoado toneladas de lixos sentimentais. Que temos nos preocupado muito com o tempo, que temos desvalorizado amigos, que temos déficit de nós mesmos.
Jefferson Vale
Jefferson Vale
