terça-feira, 23 de julho de 2013

Um Pouco de Clarice Lispector


"a única verdade é que vivo.
Sinceramente, eu vivo. 
Quem sou? 
Bem, isso já é demais...."

Um Pouco de Clarice Lispector

Mas tenho medo do que é novo e tenho medo de viver o que não entendo - quero sempre ter a garantia de pelo menos estar pensando que entendo, não sei me entregar à desorientação.

quinta-feira, 20 de junho de 2013

Manifestação Com Jesus na Contramão e Nós Também!


Depois de João ter sido preso, foi Jesus para a Galiléia, pregando o evangelho de Deus, dizendo: O tempo está cumprido, e o reino de Deus está próximo; arrependei-vos e crede no evangelho. (Marcos 1,14-15).



Aproveitando que nos últimos dias estamos imbuídos de manifestações em quase todo o território brasileiro, lembrei de um livro que li chamado, “Com Jesus Na Contramão”, do frei Carlos Meters que, no tempo de academia muito me tocou lendo suas curtas páginas, porém, cheio de enorme tom provocador de um Cristo que resolve caminhar contra um sistema instituído.

No livro, o autor Mesters quer mostrar que Jesus foi uma pessoa que sempre se POSICIONOU do lado dos pobres, dos excluídos, dos pequenos e dos humildes. Com sua CAUSA bem definida, Jesus atuou sempre na CONTRAMÃO da sociedade do seu tempo. O problema é que, ao terminar essa leitura, somos imediatamente convidados a nos posicionar diante dos dilemas e paradigmas do nosso tempo. Aliás, paradigmas estes que são cada vez mais gritantes nos pedindo respostas, ações e movimentos. 

Serão os movimentos que marcarão o ritmo de nossas POSIÇÕES frente à realidade de cada tempo. Sim! É exatamente isso que quero dizer: JESUS TAMBÉM SE MANIFESTOU! Claro que não foi como se faz hoje, cara pintada com a cor da bandeira, cartazes com frases em maiúsculo destacando a revolta, megafone para que a voz seja ouvida até mesmo por trás dos prédios blindados, etc. 

Seu protesto tinha uma CAUSA. Uma ‘BOA NOVA’ que tinha que ser compartilhada com todos os homens. Não é mais tempo de esperar. Já se cumpriu! Em Jesus Deus se entrega totalmente. É hora de agir! Viva ao Reino de Deus! O Reino é o amor de Deus que provoca a transformação radical da situação injusta que domina os homens. Está próximo porque é Reino dinâmico e sempre crescente. O povo começa a tomar gosto pela manifestação de Jesus. Em cada parte se ouve falar de um militante que luta pelo ‘passe livre’ do povo a Deus. Porém, a ação do militante Jesus exige mudança radical da orientação da vida. E, a mudança é essa: Acreditar na BOA NOTÍCIA é aceitar o que Jesus realiza e empenhar-se com ele.

Alguns aceitaram o desafio. Viu que a CAUSA tinha SIGNIFICADO e começaram a abraçar a militância do Reino de Deus. Entretanto, outros queriam levar vantagens nesse movimento desbravador, e, logo achou de passar para o outro lado, escolhendo o lado mais poderoso, mais imponente. De gente que maquinava o sistema. Esse tipo de gente até entra na CAUSA. Até gosta do movimento. Até acha a proposta boa. Mais se vende fácil! É corrupto em sua essência. É, aí, que aparecem os Judas.

O que quero dizer é simples. Que todos podem se manifestar, protestar, ou seja, como for a definição, é fato, e, até esperançoso. Quem sabe isso seja sinal de um senso critico que está se despertando depois de anos de hibernação? No fundo, o povo está dizendo que não agüenta mais! Mas, tem que ter CAUSA. E a CAUSA é o POVO e a LIBERTAÇÃO de um sistema injusto dominador fascista de anos de exploração. Só que, alguns perdem a linha, ou nunca tiveram uma. Os aproveitadores estão por aí. Atentos a tudo e tudo querendo SEMPRE mais. Até o momento que o povo resolve falar. Mais tem que ser VOZ, não VIOLÊNCIA! Por isso, que é bom olharmos pra Jesus. Sua manifestação foi pacifica, mas, nunca deixou de FALAR contra tudo que oprimia o povo.

Meu receio é de perder a CAUSA e a SIGNIFICÂNCIA daquilo que se luta. Meu medo é que os de essência corrupta levem vantagem de toda a situação. Meu temor é de voltarmos ao período do sono hibernante e sem ação.

Jefferson Vale

terça-feira, 4 de junho de 2013

Um pouco de Guimarães Rosa


Viver é um descuido prosseguido.

Mas quem é que sabe como?

Viver...

o senhor já sabe: viver é etcétera...

Um pouco de Guimarães Rosa



O correr da vida embrulha tudo.

A vida é assim: esquenta e esfria, 

aperta e daí afrouxa,

sossega e depois desinquieta.

O que ela quer da gente é coragem

Um pouco de Guimarães Rosa



Deus nos dá pessoas e coisas, 


para aprendermos a alegria...

Depois, retoma coisas e pessoas


para ver se já somos capazes da alegria


sozinhos...

Essa... é a alegria que ele quer

sábado, 11 de maio de 2013

Precisamos de um CHOQUE de Integridade





Vocês são o sal da terra. Ora, se o sal perde o gosto, com que poderemos salgá-lo? Não serve para mais nada; serve só para ser jogado fora e ser pisado pelos homens. Mateus 5,13.



Já ouvimos numeros pregadores, expondo-nos esse texto por vários primas diferentes. Falando do sal, desde a sua composição, características, diferenças e utilidade pelo tempo, e, até dizer coisas que o texto não menciona. Mas, sempre temos horizontes para explorarmos, principalmente, quando trabalhamos o texto bíblico, por ser Palavra dinâmica e sempre em movimento na vida. Minha sugestão é simples. Fazer uma varredura pelo texto. Iniciando a caminhada desde sua fonte e beber do seu manancial de água brotando do seu solo.
Então, partiremos do capítulo 5 do evangelho de Mateus, que abre com o tema da famosa Bem Aventurança ou Sermão do Monte. O Sermão do Monte é um resumo do ensinamento de Jesus a respeito do Reino e da transformação que esse Reino produz. Assim, como o grande legislador Moisés tinha recebido a Lei na montanha do Sinai, agora, Jesus se apresenta como ‘novo Moisés’, proclamando uma ‘nova Lei’ que leva à libertação do homem. Esses “ditos” de Jesus, será o tema principal até o capitulo 7, onde será inserido vários outros sub temas.
Lembrando que Jesus está falando para a multidão, e, também, para os discípulos, que agora serão os responsáveis para levar a missão enfrente. O que Jesus sugere é simples: Dêem um choque de integridade no mundo! Daí o sentido do sal, que era muito usado pelos povos antigos como recurso de conservação. Jesus desafia os discípulos a permanecerem no “sabor” da missão transformadora que o Reino de Deus produz no mundo, que é a proposta do Sermão do Monte. Porém, percebemos uma preocupação de Jesus na sequência do versículo, quando diz: Ora, se o sal perde o gosto, com que poderemos salgá-lo? Não serve para mais nada; serve só para ser jogado fora e ser pisado pelos homens. Mt 5,13b. Levantamos aqui algumas perguntas. Será que Jesus tinha a percepção que os discípulos poderiam se afastar da missão proposta? Uma outra pergunta. Esse perder o gosto seria a perda do sabor pela missão ou a perda da integridade nos corações dos discípulos? Bom, essas são outras vertentes que o texto nos apresenta.
O fato é que, o mesmo desafio que Jesus apresentou aos discípulos no Sermão do Monte, ainda está vigente para nós hoje. A minha preocupação pelo que vejo, ouço e leio é que, infelizmente, temos perdido o sabor. O que esse mundo está precisando é de um choque de integridade! O problema é que, aqueles que deveriam levar isso, perderam o sabor. Tenho pra mim, que é isso que Jesus no fundo propõe na essência da missão: NÃO PERCAM O SABOR! No momento que perdemos o sabor, de nada mais serve, a não ser, sermos jogado fora. Não perder o sabor é o nosso maior desafio no mundo atual em que vivemos. Em um mundo dominado pela corrupção, injustiças sociais, desumanização do ser humano, valorização do ter e falta de amor, só quem ainda conserva o sabor é que poderá mudá-lo.
Infelizmente, esse é o retrato de alguns lideres e Igrejas cristãs hoje. Estamos reproduzindo o mesmo modelo escravizador do mundo em nossa práxis. E, aí, poderíamos dizer como o episódio do Chapolin Colorado: quem poderá nos defender? Quem deveria levar um choque de integridade para o mundo, está precisando receber um. E, numa voltagem que realmente nos reanime para a consciência da palavra de Jesus: NÃO PERCAM O SABOR! VOCÊS SÃO O SAL DA TERRA! 

Jefferson Vale

segunda-feira, 29 de abril de 2013

"Flores, as flores de plástico, não morrem". Minha experiência dessa noite, me fez refletir como as flores de plástico são vazias e ocas por dentro, sem vida. Não morrem, é verdade, mas, as coisas inertes não sofrem. Não transmite beleza, não alegra o ambiente do ser, não troca experiência, não tem finitude. Precisamos de petálas fertéis de dentro pra fora, capaz de reproduzir movimentos de beleza, polén que estimula a formação de óvulos de harmônia, perdão, gratidão, acolhimento, afetividade. Dessa maneira teremos flores, não de plásticos, mais vivas, carregadas de perfume de vida e vida de plenitude.


Jefferson Vale

quinta-feira, 11 de abril de 2013

Olhando a Chuva


Frescor gracioso renovador de reflexões ascensionais. Pingos desintegradores pelos cantos e encantos de turbilhão de sensações dentro de mim. Tudo isso, olhando a chuva! Olhando a mim mesmo! Olhando da janela da vida, e, vida acontecendo além da janela.
Olhando a chuva. Na porta dos fundos ela toca. Expressa sua temperatura. Está sempre pronta para experimentos. Olhando a chuva que não comunga de solidão. Vem sempre acompanhada do romântico vento. Olhando a chuva! Olhando a mim mesmo! Olhando pra vida!

Jefferson Vale

sábado, 6 de abril de 2013

Processos: Trilha da Pessoa Humana




Do nascer até o morrer, estaremos o tempo todo passando por processos. Quer gostemos deles ou não, os processos são necessários para conhecermos os territórios que indicam quem você é realmente, e, que tipo de pessoa que somos. Para os gregos, “pessoa”, era tipificado na máscara que o autor usava para interpretar no teatro. Mas, uma pessoa só pode ser pessoa, si ela é dona de si. É como se você tivesse um grande pedaço de terra e não tivesse a capacidade de andar por ela para demarcá-la, e não a conhecesse na totalidade. Mas, aos poucos vai sendo dono daquilo que já é seu. Assim nos diz o Pe Fábio de Mello:


"Ser pessoa é ser dono de você mesmo, e saber lidar com seu jeito de ser, de amar, de sentir, de pensar, de ter suas limitações e saber o que você pode. Às vezes nos dispomos a ser o que não somos, dizendo 'sim' onde era para dizer 'não'. Você não teve consciência do que não podia. Jesus sempre atuou potencializando as pessoas. Fazendo-as tomarem posse do próprio território, de si mesmas. 'Eu sou dono de mim, e não abro mão'.
Quem é o 'proprietário' de seu 'pedaço de terra'? Então, Tem que ter a coragem de dizer aos inimigos: 'Aqui neste pedaço de terra tem dono (eu), e aqui não tem lugar para os bandidos. Eu não abro mão do meu pedaço de terra'. E, é aqui, que Deus trabalha em nós para celebrar a Ressurreição! Eu sou pessoa, e me recebo de Deus o tempo todo. E Ele diz: "Cuide do que você é. Você não tem o direito de deixar as pessoas lhe roubar". O bom é que encontramos pessoas que nos devolvem. A experiência com Deus sempre diz: "Eu lhe devolvo". 
Não podemos ter medo de caminhar sobre a trilha da pessoa humana! Precisamos saber o que se passa com agente mesmo, não o que acontece na vida do outro. As pessoas que vivem preocupadas com as novelas da vida, se desgastam com pessoas que nem conhecem." 


Não é fácil compreender a trilha da pessoa humana! Porque temos medo de nos investigar, de conhecer o 'porquê' de algumas reações, o 'porquê' daquela raiva que foi tão grande naquela hora, o 'porquê' eu explodi com aquela pessoa... É descobrir o 'porque' do afeto que tenho dentro de mim. Você deixa de ser explosiva demais quando toma posse do que é. Deveríamos estar em ‘obras’ o tempo todo! É o processo de construção da nossa pessoa. Pois, o homem é obra inacabada. Um ser ascensional, criado o mínimo possível, para ser recriado o máximo possível.

Jefferson Vale

quinta-feira, 4 de abril de 2013

Graça, manifestação de Deus pra nós

Porque a graça de Deus se há manifestado, trazendo salvação a todos os homens, (Tito 2,11).

Posto que a graça traz Salvação, é muito importante entender o que a graça significa. Se perguntarmos a alguns cristãos o que pensam sobre graça, provavelmente muitos estariam de acordo com a seguinte definição: “graça é a bondosa disposição de Deus para perdoar pecadores arrependidos”.
Porém, essa definição é somente meia verdade para descrever melhor o que é “misericórdia”. Assim como os fundamentos mal feitos podem ocasionar que se desmorone um edifício, as doutrinas defeituosas podem trazer conseqüências desastrosas para o cristão.
        Graça significa “favor divino não merecido”. O termo grego é charis, que deriva do verbo charizomai. Esta palavra significa “mostrar favor para” e assume a bondade do doador e a indignidade do receptor. Quando a charis (graça) é usada para indicar a atividade de Deus, significa “favor não merecido”.
        A graça e a misericórdia têm duas distinções importantes. Primeiro, a misericórdia é universal, a graça é particular. A misericórdia se baseia no mandato universal de Deus para que nos arrependamos. Conforme Atos 17,30:
Ora, não levou Deus em conta os tempos da ignorância; agora, porém, notifica aos homens que todos, em toda parte, se arrependam;
        Conforme a este mandamento se assume que o pecador arrependido será perdoado. Existe uma oferta divina de misericórdia para toda a humanidade. Por essa razão, Deus nunca pode ser acusado de injusto meramente porque alguns recebem a graça especial. É bom que saibamos que Deus nunca rejeita um pecador arrependido.
       Ademais, a graça nunca foi “oferecida” a todo o mundo, nem sequer aos eleitos. A graça não é uma oferta. É uma dádiva (presente) não merecida e particular no sentido de que Deus outorga um favor para aqueles e aquelas que acolhem – na em seus corações.
      Outro ponto relevante é o termo grego epefáne, daí a palavra epifania que significa “manifestação, aparição”, que deriva do verbo épifaíno, essa palavra significa “aparecer, mostrar-se, fazer uma aparição”. Ou seja, como já falamos acima, e aqui só frisamos, por que é importantíssimo para o nosso entendimento, no prisma do texto de Tito, é Deus que se revela, manifesta à nós. E como se revela? Nos diz o texto no grego que é por charis ou graça. E, por isso, sempre quando paro para meditar nessa manifestação de Deus graciosa na minha vida, vejo que graça também é “atração”. Atração de um Deus que me quer perto Dele e pra Ele. Deus me fascina, me move, e faz voltar-se pra Ele o tempo todo.
        Sempre com profunda reflexão o Pr. Ariovaldo Ramos diz que graça é essa capacidade do coração de Deus, de oferecer ao ser humano e de instalar no ser humano a consciência do seu pecado, a possibilidade de mudar de vida e instigar ao ser humano em ir em direção de Deus submetendo-se a Jesus Cristo o tempo todo.
Jefferson Vale

Estou Longe Agora

Estou longe agora. Longe de lugares que me fizeram viver,
desfrutar uma aliança pura com a minha loucura.
Estou longe agora. Longe dos caminhos do mundo que me
fizeram ter medo de mim mesmo, é, aí que meu espírito voa
longe. Estou longe agora, longe, sempre longe, peregrinando 
na terra das lembranças!

                                                                        Jefferson Vale

terça-feira, 19 de março de 2013

Culto e Alegria, simultaneidade de Romanos 12,1



Rogo-vos, pois, irmãos, pelas misericórdias de Deus, que apresenteis o vosso corpo por sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, que é o vosso culto racional. Rm 12,1



Em um tempo em que os cultos de nossas Igrejas recebem os adjetivos de “Show da Fé”, “12 Dias de Clamor por 12 Meses de Bençãos”, “Campanha das Sete Unções”, e muitos outros por aí, surgem algumas indagações: O que é culto? Qual seu verdadeiro sentido? Por que cultuamos? Pra que cultuamos e, ainda, a quem cultuamos? Nossos cultos podem ser alegres? Até onde podemos denominar de “culto alegre”? Bom, precisamos saber primeiro o significado de culto. Para o adjetivo culto, temos duas vertentes. 1) Do Latim PRAESTARE, “estar na frente de, abrigar, garantir”, de PRAE-, “à frente”, mais STARE, “ficar de pé”. 2) Do L. CULTUS, “cuidado, cultivo, adoração, reverência”, particípio passado de COLERE, “cultivar o solo, plantar”. Então, na etimologia da palavra, culto é estar na frente ou diante de algo que cria em mim (no nosso caso Jesus) um sentido de reverência, adoração, e, por isso, fico de pé, para expressar tudo àquilo que é em mim, já responde algumas das perguntas acima. Se o culto é o espaço (não somente lugar) de expressar a Jesus tudo aquilo que Ele é em mim, porque se tem tamanha deturpação nos cultos evangélicos?


Pesquisando algumas coisas na internet, deparei com essa frase: “O que realmente faz o consumidor comprar ou não comprar é o conteúdo da propaganda não, a forma”. Essa frase é de David Ogilvy, que foi um publicitário fundador da Ogilvy & Mather. Fez diversas campanhas para grandes empresas como Rolls Royce, Schweppes, Shell, além de campanhas para desenvolver o turismo nos Estados Unidos, Inglaterra e Porto Rico. Escreveu dois que foram livros bestseller's internacionais sobre táticas e técnicas de publicidade e propaganda, “Confissões de um publicitário” e “Ogilvy sobre Publicidade”. Sendo um pouco mais analítico na frase de Ogilvy, o que pra ele motiva alguém a comprar ou não algo é o “conteúdo da propaganda”. Se fizermos um paralelo com a frase do ex-publicitário e o que chamamos hoje de culto, constataremos uma lúcida manobra de marketing para atrair os cultuantes (consumidores da fé) para os templos, deturpando com isso o sentido do culto. Qual o conteúdo da propaganda? Se você está doente, depressivo, desempregado, sofrendo, etc., venha para nossas reuniões. Esse é o conteúdo! Chulo, depreciativo, que explora as deficiências de sociais de nossas cidades, sem promoção de humanidade, solidariedade entre os irmãos, apenas reuniões para impor a rede do caminho largo e desumano.


No texto de Romanos temos um lindo exemplo de culto. O que Paulo entende de culto autêntico, pautado numa vida cristã radiante de Cristo? Diz-nos o texto, “Rogo-vos, pois, irmãos, pelas misericórdias de Deus, que apresenteis o vosso corpo por sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, que é o vosso culto racional”. Ressaltamos aqui, o que realmente teríamos de ter como conteúdo em nossos cultos, apontado por Paulo, logo depois de ter recitado o Hino de Adoração (cf. Rm11,33-36), o apóstolo Roga, ou seja, pede por favor, por graça, por insistência, que, a vida cristã é resposta à misericórdia de Deus e que abrange toda a existência concreta do homem. É pela Misericórdia, do grego oivktirmw,j, é o amor inclusivo. A este amor, as Escrituras chamou de “misericórdia”. A misericórdia é um princípio feminino do amor: é envolvente, generativo (torna a gerar, reproduzir, reabilitar), paciente e potente. O amor misericordioso, feminino, clama também por um lado masculino do amor. A misericórdia é o amor que reúne, é sem medidas, é sempre generosamente “tudo para todos”. parasth/sai, verbo infinitivo aoristo, dando ideia de ação sem designar número de pessoa, que apresenteis ou coloqueis a disposição. O que? O corpo (sw,mata), não só isso, também zw/san, vida, conduta de vida, ou seja, a vida cristã é resposta a misericórdia de Deus que abrange toda existência concreta do homem, representada pelo “corpo” como centro de vida e ação da relação com Deus, com os homens e com o mundo. Cada cristão oferece a si mesmo, sendo ele próprio sacerdote e o sacrifício vivo, que é o logikh.n = espiritual ou racional. Podemos colocar como culto autêntico, um culto onde respondemos a misericórdia de Deus, que abraça toda a nossa existência (corpo), disponibilizando-me inteligivelmente diante da vida.


Se compreendermos o culto racional por essa perspectiva, então, no contexto maior de Romanos 12,3-8, em que relata sobre os dons (virtude, habilidade) na vida da comunidade cristã, temos como exigência básica não só no conteúdo, mas, também na forma desse culto o abandono da pretensão de ser o maior ou o mais importante, para colocar-se com simplicidade a serviço dos outros. Todos precisam de cada um, e cada um precisa de todos. A graça que Deus concede a cada um é o próprio modo de ser de cada pessoa. E esse modo de ser, que é iluminado pela fé, se coloca à disposição das necessidades dos outros, a fim de que todos possam crescer, mediante a contribuição de cada um, com i`laro,thti, ou seja, alegria (cf. nota em 1Cor 12,12-31). Vivenciar um culto assim é, sem dúvida, estar repleto de alegria. No meu ponto de vista, cultuar, também é alegrar, sem perder de vista tudo aquilo que até aqui nos direcionou. Culto é espaço de alegres servidores por um Deus repleto de misericórdia!

Jefferson Vale

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

O “como” da ciência e o “por quê” da teologia


Por que “somar” Filosofia e Teologia, é, sem dúvida, um viés que corta toda a história cristã? Alguns questionamentos possíveis seriam: só a teologia é capaz de pensar a cristologia? Há outras cristologias além da dogmática? Que a nossa formação cristã tem uma boa base de seu conteúdo da Filosofia de Platão, Aristóteles, Decartes, entre outros, é patente.  Quantos teólogos e filósofos, já tentaram e tentam até hoje, racionalizar a fé. Ou, quem sabe, “compreender” a fé. Talvez, não seja bem isso que o texto quer considerar, mas para Kant, essas Filosofias vão se somando e abrindo campos cada vez mais extensos. Até onde pode ir essa extensão? Qual seria o seu objetivo? Essas seriam algumas perguntas que certamente surgiria.
Juan Luiz Segundo emprega a questão da especialização das ciências. Essas ciências, que antes se englobavam na filosofia, agora vão se tornando “independentes”, eu diria, vão se utilizando de outras formas, vão criando outros métodos (medição e pesquisa), cada uma no seu campo do saber, através de suas experiências (medição empírica).
Fé e ciência devem ser domínios separados, mas devem trabalhar levando-se em conta. Porque afinal, hoje percebemos que os seus métodos são na verdade próximos e complementares: nem a ciência nem a teologia podem pretender objetividade. A teologia não pode conhecer Deus nele mesmo, e o objeto de seu estudo é a relação entre Deus e o homem; da mesma forma, a ciência pode apenas estudar a relação entre a realidade física e o homem, porque a mecânica quântica prova que a intervenção humana modifica irremediavelmente os dados e coloca o real fora de nossas possibilidades.
O que estudam o cientista e o teólogo é então definitivamente o humano, em suas relações com a natureza e a “sobrenatureza”. E as conclusões a que podem chegar ciência e teologia, no fim de contas, situam o teólogo muito próximo do cientista autêntico e com um mínimo de sensibilidade humana. O teólogo precisa reinterpretar sempre as escrituras da revelação, mas partindo e visando a realidade sócio-natural – que é interpretada pela ciência. Quanto mais a ciência progride, mais ela deixa entrever uma ligação íntima entre o material e o espiritual.
O “como” da ciência e o “por quê” da teologia são intimamente ligados. A teologia tem necessidade da ciência para progredir e está convocada para a grande unificação do saber a que todos aspiram hoje. A Igreja pode falar do divino somente apoiando-se sobre o que se descobriu sobre o universo.
Aprofundando a sua busca por uma interpretação libertadora do dogma, Juan Luis Segundo resumiu as relações da teologia com as filosofias e ciências. Ele demonstrou que o cristianismo, ao inculturar-se no mundo greco-romano, relevou a linguagem do hebraísmo para inserir sua mensagem na cultura digital que se lhe afigurou e serviu-se do monismo filosófico que crescia aí para fazer apologia do seu monoteísmo. Porém, Segundo perguntou se a lógica do ser e das causas não estava subestimando o saber poético e intuitivo do amor, que é o cerne da experiência cristã, e defendeu a idéia de que um dualismo “que não seja preguiçoso, mas cauteloso” poderia suplantar, com vantagens, o monismo que, de um modo geral, reinou na história da filosofia e da teologia.
Termino suspeitando que, segundo nos sugere um desenvolvimento de um diálogo com Deus. Sem dramaticidade envolvente, sem técnica elaborada (sobrenatural), mas, que passa pelo inteligível (metanoia do grego), não deixando de ser por fé.