
Esses dias fui fazer a minha velha e saudável corrida perto da minha casa, como é habitual. O que de fato não contava, era com um final de dia extremamente anormal. A poucos passos, depois de um breve aquecimento, deparei-me com um cenário arrebatador.
Um pôr do sol desnublante, inigualável e espetacular. Não deu mais para correr de imediato depois que apreciei tal preciosidade da natureza perante meus olhos, gratuito e sem igual. Basta parar para olhar e mais nada. O problema é que estamos ocupados demais para apreciar isso. Estamos abarrotados de coisas que bloqueiam o olhar para a essência do que é belo. Em poucos passos apreciando a vista, percebi o quanto o mundo está "doído"! Estamos ocupados demais! Apressados demais! Estressados demais! Insensíveis demais para ver um pôr do sol, pois, não é muito importante isso, não nos dá lucro, sucesso e prestígio. Percebi que só nos importamos de fato com aquilo que podemos ter vantagem. É impressionante como perdemos a sensibilidade de enxergar a expressão exuberante da natureza que se oferece todos os dias bem perto de cada um de nós.
Fiquei perplexo, de como as pessoas no mesmo lugar que estava, não se importavam para a cena linda que tomou conta de meus olhos. As pessoas passavam o tempo todo carregando coisas, animais, celulares, de carro, de moto, de bicicleta, com carrinho de bebê e etc, mais completamente cegas para cena que estava bem diante de cada um. A impressão é que estamos aprisionados pela ilusão do comum, que isso tem todos os dias que amanhã posso parar pra ver. Não sei até que ponto podemos sustentar tal prerrogativa. Talvez, estamos mesmo é precisando de óculos pra ver, já que nosso olhar está embaçado demais para contemplação. As coisas fúteis tem paralisado nossa existência!
Fico me perguntando, se realmente não estamos enxergando ou estamos sem tempo mesmo de parar pra ver? Se esse exame estiver mesmo certo, acho que chegamos ao estágio de empurrar a vida pro nada, pois, o nada e não enxergar ou não ter tempo do que a vida e o mundo tem de tão belo são as mesmas coisas. Como bem nos lembra José Saramago que "o egoísmo pessoal, o comodismo, a falta de generosidade, as pequenas cobardias do quotidiano, tudo isto contribui para essa perniciosa forma de cegueira mental que consiste em estar no mundo e não ver o mundo, ou só ver dele o que, em cada momento, for susceptível de servir os nossos interesses. Então, coube a mim, em um intrigante despertar, registrar isso como a intensa forma de saber que aquilo que estava perante os meus olhos é o único momento que se tem, para os que ainda querem ver. Devemos transformar o que temos perdido numa festa interminável de tempo de aproveitar, sem ligar para o relógio, calendário, agenda ou imposições adquiridas de tudo que já estamos pra lá de acostumados. Será que isso ainda é possível ou só conseguiremos fazer isso depois da morte?
Vida louca vida
Vida breve
Já que eu não posso te levar
Quero que você me leve (Cazuza)
Jefferson Vale