terça-feira, 19 de março de 2013

Culto e Alegria, simultaneidade de Romanos 12,1



Rogo-vos, pois, irmãos, pelas misericórdias de Deus, que apresenteis o vosso corpo por sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, que é o vosso culto racional. Rm 12,1



Em um tempo em que os cultos de nossas Igrejas recebem os adjetivos de “Show da Fé”, “12 Dias de Clamor por 12 Meses de Bençãos”, “Campanha das Sete Unções”, e muitos outros por aí, surgem algumas indagações: O que é culto? Qual seu verdadeiro sentido? Por que cultuamos? Pra que cultuamos e, ainda, a quem cultuamos? Nossos cultos podem ser alegres? Até onde podemos denominar de “culto alegre”? Bom, precisamos saber primeiro o significado de culto. Para o adjetivo culto, temos duas vertentes. 1) Do Latim PRAESTARE, “estar na frente de, abrigar, garantir”, de PRAE-, “à frente”, mais STARE, “ficar de pé”. 2) Do L. CULTUS, “cuidado, cultivo, adoração, reverência”, particípio passado de COLERE, “cultivar o solo, plantar”. Então, na etimologia da palavra, culto é estar na frente ou diante de algo que cria em mim (no nosso caso Jesus) um sentido de reverência, adoração, e, por isso, fico de pé, para expressar tudo àquilo que é em mim, já responde algumas das perguntas acima. Se o culto é o espaço (não somente lugar) de expressar a Jesus tudo aquilo que Ele é em mim, porque se tem tamanha deturpação nos cultos evangélicos?


Pesquisando algumas coisas na internet, deparei com essa frase: “O que realmente faz o consumidor comprar ou não comprar é o conteúdo da propaganda não, a forma”. Essa frase é de David Ogilvy, que foi um publicitário fundador da Ogilvy & Mather. Fez diversas campanhas para grandes empresas como Rolls Royce, Schweppes, Shell, além de campanhas para desenvolver o turismo nos Estados Unidos, Inglaterra e Porto Rico. Escreveu dois que foram livros bestseller's internacionais sobre táticas e técnicas de publicidade e propaganda, “Confissões de um publicitário” e “Ogilvy sobre Publicidade”. Sendo um pouco mais analítico na frase de Ogilvy, o que pra ele motiva alguém a comprar ou não algo é o “conteúdo da propaganda”. Se fizermos um paralelo com a frase do ex-publicitário e o que chamamos hoje de culto, constataremos uma lúcida manobra de marketing para atrair os cultuantes (consumidores da fé) para os templos, deturpando com isso o sentido do culto. Qual o conteúdo da propaganda? Se você está doente, depressivo, desempregado, sofrendo, etc., venha para nossas reuniões. Esse é o conteúdo! Chulo, depreciativo, que explora as deficiências de sociais de nossas cidades, sem promoção de humanidade, solidariedade entre os irmãos, apenas reuniões para impor a rede do caminho largo e desumano.


No texto de Romanos temos um lindo exemplo de culto. O que Paulo entende de culto autêntico, pautado numa vida cristã radiante de Cristo? Diz-nos o texto, “Rogo-vos, pois, irmãos, pelas misericórdias de Deus, que apresenteis o vosso corpo por sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, que é o vosso culto racional”. Ressaltamos aqui, o que realmente teríamos de ter como conteúdo em nossos cultos, apontado por Paulo, logo depois de ter recitado o Hino de Adoração (cf. Rm11,33-36), o apóstolo Roga, ou seja, pede por favor, por graça, por insistência, que, a vida cristã é resposta à misericórdia de Deus e que abrange toda a existência concreta do homem. É pela Misericórdia, do grego oivktirmw,j, é o amor inclusivo. A este amor, as Escrituras chamou de “misericórdia”. A misericórdia é um princípio feminino do amor: é envolvente, generativo (torna a gerar, reproduzir, reabilitar), paciente e potente. O amor misericordioso, feminino, clama também por um lado masculino do amor. A misericórdia é o amor que reúne, é sem medidas, é sempre generosamente “tudo para todos”. parasth/sai, verbo infinitivo aoristo, dando ideia de ação sem designar número de pessoa, que apresenteis ou coloqueis a disposição. O que? O corpo (sw,mata), não só isso, também zw/san, vida, conduta de vida, ou seja, a vida cristã é resposta a misericórdia de Deus que abrange toda existência concreta do homem, representada pelo “corpo” como centro de vida e ação da relação com Deus, com os homens e com o mundo. Cada cristão oferece a si mesmo, sendo ele próprio sacerdote e o sacrifício vivo, que é o logikh.n = espiritual ou racional. Podemos colocar como culto autêntico, um culto onde respondemos a misericórdia de Deus, que abraça toda a nossa existência (corpo), disponibilizando-me inteligivelmente diante da vida.


Se compreendermos o culto racional por essa perspectiva, então, no contexto maior de Romanos 12,3-8, em que relata sobre os dons (virtude, habilidade) na vida da comunidade cristã, temos como exigência básica não só no conteúdo, mas, também na forma desse culto o abandono da pretensão de ser o maior ou o mais importante, para colocar-se com simplicidade a serviço dos outros. Todos precisam de cada um, e cada um precisa de todos. A graça que Deus concede a cada um é o próprio modo de ser de cada pessoa. E esse modo de ser, que é iluminado pela fé, se coloca à disposição das necessidades dos outros, a fim de que todos possam crescer, mediante a contribuição de cada um, com i`laro,thti, ou seja, alegria (cf. nota em 1Cor 12,12-31). Vivenciar um culto assim é, sem dúvida, estar repleto de alegria. No meu ponto de vista, cultuar, também é alegrar, sem perder de vista tudo aquilo que até aqui nos direcionou. Culto é espaço de alegres servidores por um Deus repleto de misericórdia!

Jefferson Vale

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