segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Uma análise pastoral do consolar, como instrumento terapêutico no Sofrer humano
Essa semana experimentei algo que até o momento era inédito em minha vida. Recebi a ligação de uma irmã da Igreja, aos prantos, informando-me do falecimento de um parente seu. Claro, que, no momento, a primeira reação é a de pânico e um desconforto sem precedente. Mas, você mantém o equilíbrio para levar uma palavra de conforto, apesar, que, palavras nesse momento são como bolinhas de sabão soltas no ar. Você deve tá se perguntando, do por que do meu pânico e qual meu envolvimento com o morto? Bom, vou começar dizendo que, foi minha primeira experiência pastoral em um momento desse. Envolvimento com o morto? Sim e não. Começaremos com o não. Nunca tinha o visto antes. Nunca lhe dirigi uma misera palavra, nunca tinha apertado sua mão, desconhecia o time que torcia, não compartilhava seus segredos, enfim, nada. Por outro lado, sim, porque naquele momento, tive que levantar informações a seu respeito. Claro que não perguntei quase nada que pontuei acima. Não precisou. As pessoas falavam sobre isso. Narravam momentos importantes de sua trajetória vida. Naquele momento, sem perceberem, elas eram autores e autoras de estórias, desprendidas de seus julgamentos infernais, brotando naturalmente do chafariz das lembranças de momentos marcantes do falecido. Naquele momento tornara-se como um memorial vivo. É como se o falecido ainda estivesse vivo, presente, participando do papo, mas não de seu funeral, mais da vida que insiste em continuar.
Pude analisar a função pastoral como instrumentação de solidariedade em meio ao sofrer humano. Não estou falando da utilização de método terapêutico de produção de cura interior, entre outros. Nada disso. Meu prisma é, como a função pastoral abre espaço para aproximação, possibilitando participar de histórias de vidas, partilha de momentos importantes e felizes, assim, como, momentos de medo e insegurança das pessoas.   Lembro-me de 2 Coríntios 1,4: “É ele que nos consola em toda a nossa tribulação, para podermos consolar os que estiverem em qualquer angústia, com a consolação com que nós mesmos somos contemplados por Deus”. Em análise mais apurada desse versículo, o verbo particípio presente ativo nominativo  parakalwn  também significa, confortar, encorajar. É utilizada mais o verbo consolar, nas principais traduções em nossa língua. Nesse caso, o verbo consolar, que está diretamente ligado com o verso 3 “... o Deus de toda consolação”, está em diálogo direto com o substantivo dativo feminino singular qliyei , traduzido por tribulação ou angústia.  Nesse contexto, o verbo consolar, conjugado em nossa língua no presente do indicativo, 3ª pessoa do singular, exprime a situação atual, presente do consolar agindo no substantivo tribulação, dando-o consolo, conforto e encorajamento até para enfrentar a morte. É como se fosse uma ação terapêutica, um momento de refrigério que age diretamente na pessoa que passa por tribulação ou angústia. No contexto, o apóstolo Paulo sofre a ação do Deus de toda consolação. O consolar se transforma no instrumento de alivio (diminuição de peso, descanso) da aflição ou do sofrimento, porque recebe a ação direta do Deus de toda consolação, ou seja, o meu posicionamento em meio às tribulações é de verdadeira passividade (inércia, sem atividade). Pois, é o Deus da consolação que age em mim, ou melhor, é o sujeito que sofre a ação do Deus de toda consolação.  É Ele que nos consola, conforta e encoraja, mas sempre no sentido de continuar a viver, a seguir, a estar pronto para novos desafios que a vida nos trará.

Outro passo importante nesse verso é, que, já que recebemos a ação do Deus consolador em nossas vidas, agora, na parte B do versículo “... para podermos consolar os que estiverem em qualquer angústia...”, somos nós, que, agora saímos da inércia e, passamos a ser o agente da consolação para os que precisam de consolo. Ou seja, a minha posição agora não é de passividade, mas, sim, de terapeuta, para o outro que, assim como eu, também passa pelo sofrimento. Que possamos utilizar esse instrumento, no exercício da área pastoral, para beneficiar nossas comunidades, na ampla e dinâmica arte do cuidar.  


Jefferson Vale

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